quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Uma metáfora do livre arbítrio


Um professor leva sua turma de alunos, todos crianças, para a sala de vídeos da escola. Ele quer que elas vejam um vídeo educativo. 

A sala é grande e cada aluno escolhe onde quer sentar. A maioria senta-se no fundo da sala enquanto duas alunas sentam-se bem perto da TV. 

O professor zapeia os canais e, como deseja que os alunos aprendam a administrar as pequenas coisas e a tomar decisões sábias, resolve que uma das alunas ficará com o controle remoto e pergunta a uma delas "Qual desses canais você prefere?" E ela responde "Fiquei curiosa para ver aquela entrevista com artistas famosos". 

Faz a mesma pergunta à outra aluna e ela responde "Eu queria ver aquele desenho animado". 

O professor concorda com a ideia da segunda aluna mas volta a perguntar a elas: "Em qual volume vocês colocariam a TV se eu lhes desse o controle remoto?". 

A primeira aluna diz "Eu colocarei em um volume médio, nem muito alto e nem muito baixo". Já a segunda diz "Eu colocarei em um volume baixo, só o suficiente para ouvirmos sem muito esforço". 

O professor sabe que a decisão dele é só sobre qual aluna vai ficar com o controle remoto, mas, uma vez dado o controle a uma delas, ele pretende que ela escolha tanto o canal quanto o volume da TV, porque considera que isso é educativo e vai no sentido de seus objetivos como educador. 

Então ele pondera que prefere a escolha de canal da segunda aluna, porém o volume que a primeira pretende escolher é a princípio melhor. Por fim, decide dar o controle à segunda aluna, sabendo que, para que os demais alunos possam ouvir e acompanhar o programa, eles terão de se deslocar lá do fundo para sentar-se à frente, mais próximos da TV, para ouvir melhor. 

Então ele comunica a decisão aos demais alunos, que não haviam prestado muita atenção à conversa do professor com as duas colegas sentadas na frente. Eles não sabiam das opções que essas duas colegas haviam levantado, mas concordam por unanimidade que é uma boa ideia assistir ao desenho animado. Contudo, haviam ouvido com ligeira atenção apenas uma parte da conversa do professor com as colegas e, com isso, estavam cientes de que a primeira colega preferia um volume mais alto, de maneira que ficam sem entender por que o professor escolheu a segunda aluna. Para eles, essa escolha pareceu inconveniente, porque isso lhes trouxe o inconveniente trabalho 
adicional de deslocarem-se para as fileiras da frente da sala. 

Isso talvez seja algo que ligeiramente lembra a forma como Deus toma Suas decisões, se bem que nos é impossível compreender os planos dEle. 

Mas talvez com uma ilustração dessas possamos pensar no seguinte: Deus poderia fazer todas as coisas por Si mesmo, mas criou-nos com algum objetivo e prefere que nós façamos algumas coisas, tendo dado a cada um de nós algumas responsabilidades. Ele toma algumas decisões e outras é como se delegasse ao nosso livre-arbítrio. Contudo, Ele nunca é pego de surpresa por nossas decisões, pois sabe de antemão o que cada um vai fazer com o que ele nos der. 

Assim, Ele escolhe, tendo em vista os objetivos que apenas Ele conhece bem, o que delegará a cada um de nós. 

Mas podemos pensar "Por que Deus dá alguns dons a pessoas que os usam mal?" ou, por exemplo, "Por que Ele permite que uma pessoa se torne rica se sabe que ela desperdiçará todo o dinheiro que tiver, enquanto outra pessoa, que é boa, não se torna rica?". Talvez seja porque Ele saiba, e nós não, que, numa das ocasiões em que a pessoa rica desperdiçou dinheiro, um sujeito a viu e, percebendo que alguém pode ser rico materialmente mas miserável quanto às coisas espirituais, com isso aprendeu que das riquezas deste mundo não se 
pode esperar muita coisa e assim tudo isso serviu como uma dádiva para esse sujeito, que com esse pensamento (e outros) acabou por se converter. E talvez ele saiba que aquela outra pessoa, que é boa mas é pobre, se tivesse muito dinheiro, iria ser tentada pelas riquezas deste mundo e não conseguiria resistir à tentação, que faria com que ela se tornasse uma pessoa perversa. 

O fato é que Deus conhece tudo, inclusive o futuro, e considera todas as inumeráveis variáveis que estão em jogo. Talvez com isso é que ele tome decisões que, se por um lado nos predestinam a um certo futuro, por outro não são decisões vãs e nem mesmo decisões que nos removem o livre-arbítrio. 
Porque bem pode ocorrer que Deus nos dê liberdade de escolher o que fazer com as coisas que Ele nos deu já sabendo, de antemão, as escolhas que faríamos. E, ora, não há nenhuma contradição nisso, como ilustra o exemplo do professor: ele leva em consideração as decisões que sabe que as alunas vão tomar (a diferença é que Deus não precisa perguntar, como o professor perguntou às alunas, porque Ele já sabe de tudo), mas não toma as decisões por elas (apenas dá a uma o poder de concretizar sua escolha e à outra não). 

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